Terça-feira, Janeiro 13, 2004
A gente se fala!!
[TELEFONEMA]
Emília Maria Martins Lopes
As horas foram passando e o sol já estava querendo sumir. No centro da cidade o sol desaparece mais cedo em meio a tantos prédios.
Durante todo o dia, os ponteiros do relógio pareciam insistir em ficarem preguiçosos. Por que será que quando queremos alguma coisa, com hora marcada, parece que o tempo anda mais devagar?
Tinha levantado cedo, como sempre.
Apesar de estar há pouco morando naquela cidade, já tinha alguns conhecidos. Eram apenas conhecidos. Ninguém que soubesse nada de sua vida passada. Ninguém que soubesse nada do que tinha feito ou fazia. Apenas pessoas que ela tinha o hábito de cumprimentar e que, agradavelmente, lhe retribuíam os cumprimentos.
No caminho de casa para o trabalho, sempre parava na padaria para um café rápido e o João, moço do caixa, dizia-lhe bom dia. A atendente Marieta, até perguntava se era o mesmo de sempre, pois estava acostumada ao seu "suco de laranja e pedaço de torta salgada".
Na esquina do escritório ficava a banca de jornal que ela entrava, dava uma olhada rápida nas capas das revistas e saía com o jornal do dia embaixo do braço com um "até amanhã" para o Seu Geremias. Quando chegava no prédio do serviço, Deivid (escreve assim mesmo), atrás do balcão da recepção, não lhe pedia mais o crachá. Apenas dizia: Bom dia dona Ângela. Tenha um bom trabalho!
No elevador, às vezes, via um rosto conhecido, mas normalmente os que com ela subiam eram mais alguns funcionários do prédio que ela nunca tinha visto. Várias firmas funcionavam ali.
Parava sempre no 5° andar e saia sem olhar para trás. Pegava a chave na bolsa, abria o escritório, entrava, guardava sua bolsa no armário, abria as cortinas e começava sua rotina diária. O serviço não era muito. Trabalhava como secretária de um advogado que vivia mais viajando, do que qualquer outra coisa. Ainda não tinha completado nem um mês de serviço e esperava que no dia de seu pagamento o "chefe" estivesse na cidade para pagar-lhe, porque senão não iria ter como pagar suas dívidas. O salário era acima do que esperava e aceitara o serviço porque na sua cidade, no interior, as ofertas de emprego tinham sumido.
Quem lhe arrumou esse emprego foi uma professora da faculdade que se formara. O Dr. Júlio era conhecido antigo e estava precisando de uma secretária que fosse de confiança, dinâmica, organizada e dominasse o italiano, o inglês e o francês. Ela se encaixava no perfil e sua professora acabou lhe indicando.
O telefone tocava pouco porque a maioria dos comunicados era via Internet. Raramente alguém aparecia no escritório porque seus clientes eram grandes firmas e todo o contato era feito através de e-mails.
Normalmente, na parte da manhã, as coisas estavam todas resolvidas e o resto do dia Ângela ficava à toa.
Um ou outro serviço rápido e, no mais era esperar dar dezessete horas para ir embora.
Não deixava o escritório nem para almoçar. Pedia comida pelo telefone e, ali mesmo, em um pequeno espaço improvisado de cozinha, ela fazia sua refeição.
Não repassou seu novo e-mail para os antigos amigos e o telefone do escritório era sagrado. Este ela não passaria nem para o namorado. Aliás não era namorado, era amante.
Há três anos eles estavam nessa situação, mas como a filha mais nova dele era problemática, ele não podia, ainda se separar. No ano anterior, foi a esposa que ficou doente, depois que o filho do meio atropelou o cachorro da família e antes disso ela não lembrava o que havia acontecido.
Agora ia ficar um pouco mais difícil se verem, pois estavam a mais de quinhentos quilômetros de distância. Mesmo assim, Ângela tinha a esperança que um dia eles iriam ficar juntos.
A tarde passou vagarosa. Não via a hora de ir embora. Aliás, especialmente naquele dia ela iria mais tarde um pouco porque tinha um compromisso.
Quando o relógio marcava dezessete e vinte Ângela saiu do trabalho, pegou o elevador, desceu, foi até o telefone público que ficava no meio de uma galeria e ligou.
Ele ficava no serviço até dezessete e trinta. Quando queria falar com Jonas ligava no final do expediente para não atrapalhar. Não podia ligar para outro lugar.
- Queria falar com o Dr. Jonas.
- Quem gostaria?
- É a secretária do primo dele: Rita
- Só um momentinho que vou passar a ligação.
- Alô!
- Oi amor, sou eu: Ângela. Pode falar?
- Fala companheiro! O que manda?
Ela sabia que ele não poderia falar. Devia estar com alguém junto dele.
- Deixa pra lá, amor. Amanhã eu ligo de novo.
- Amanhã? Não vai dar. Estou saindo de viagem com a família. Estão todos aqui porque ainda temos umas compras para fazer antes de viajarmos.
- Que pena. Então outra hora eu ligo. Um beijo grande para você. Estou com saudades!!!!!!!
- Até logo!
Desligou o telefone e uma lágrima caiu de seu rosto.
Era seu aniversário e tudo o que ela queria era ouvir alguém lhe dizer:
- Parabéns pelo seu aniversário!!!!!!!!

Martha Medeiros nasceu em 20 de agosto de 1961 em Porto Alegre, onde vive até hoje. É formada em Publicidade e Propaganda e trabalhou como redatora e diretora de criação em várias agências da capital gaúcha. Em 1993, deu um tempo e foi morar em Santiago do Chile, onde passou 8 meses apenas escrevendo poesia. Já tinha, nesta época, publicado 3 livros, o primeiro deles "Strip-Tease", que saiu pela coleção Cantadas Literárias da editora Brasiliense, de São Paulo.
Quando retornou ao Brasil, foi convidada a escrever crônicas para o jornal Zero Hora, o que nunca havia feito. Deu certo. Desde 1994 é titular de uma coluna no caderno ZH Donna, que circula aos domingos, e de outra coluna que circula às quartas-feiras, na página 3 do jornal. Desde 1998 escreve uma coluna semanal para o site Almas Gêmeas e é colaboradora também da revista Viagem, da editora Abril.
Hoje, Martha tem 12 livros publicados, sendo que o seu maior sucesso literário é o livro de crônicas "Trem-Bala", que foi adaptado com êxito para o teatro, sob direção de Irene Brietzke. Entre outros livros estão "Topless", "Poesia Reunida", "Cartas Extraviadas e Outros Poemas", editados pela L&PM (www.lpm.com.br) e o "Divã", lançado pela editora Objetiva. Martha adoraria morar um tempo em Londres, gosta de dirigir, de cinema, de shows de rock, de ler livros, de vinho tinto e de bordar tapetes. É casada e tem duas filhas.
[Proibida pra mim]
Zeca Baleiro
Ela achou o meu cabelo
engraçado
proibida pra mim no way
disse que não podia ficar
mas levou a sério o que eu falei
eu vou fazer tudo que eu puder
eu vou roubar essa mulher pra mim
posso te ligar a qualquer hora
mas eu nem sei o seu nome
se não eu quem vai fazer você feliz?
Se não eu quem vai fazer você feliz? guerra
Eu me flagrei pensando em você
em tudo que eu queria te dizer
em uma noite especialmente boa
não há nada mais que a gente possa fazer
eu vou fazer de tudo que eu puder
eu vou roubar essa mulher pra mim
posso te ligar a qualquer hora
mas eu nem sei o seu nome
se não eu quem vai fazer você feliz?
Se não eu quem vai fazer você feliz? guerra